Sobre o ensino da filosofia


[Segunda parte do Parecer privado de Hegel para o real Conselheiro superior da Baviera, Immanuel Niethammer, escrito em Nuremberg, a 23 de outubro de 1812 e publicado posteriormente nas Obras Completas do filósofo. Texto extraído de G. W. F. HEGEL. Werke in zwanzig Bänden. 4. Nürnberger und Heidelberger Schriften (1808-1817). Theorie Werkausgabe. Suhrkamp Verlag, 1970, p. 410-416. Versão portuguesa de G. W. F. HEGEL. Propedêutica filosófica. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1989, p. 371-376. Texto disponibilizado na Internet por Lusosofia.net]

 

O ensino da filosofia nos ginásios

G. W. F. HEGEL

 

II. MÉTODO

 

A.

Em geral, distingue-se o sistema filosófico com as suas ciências particulares e o próprio filosofar. Segundo a mania moderna, sobretudo da pedagogia, não importa tanto instruir-se no conteúdo da filosofia quanto aprender a filosofar sem conteúdo; isto significa mais ou menos: é preciso viajar e viajar sempre, sem chegar a conhecer as cidades, os rios, os países, os homens, etc.

Em primeiro lugar, quando se conhece uma cidade e, em seguida, se chega a um rio, a outra cidade, etc., aprende-se, sem mais, deste modo a viajar, e não só se aprende, mas efetivamente já se viaja. Assim, ao chegar-se a conhecer o conteúdo da filosofia, aprende-se não só o filosofar, mas já efetivamente se filosofa. Também o fim do próprio aprender a viajar seria apenas chegar a conhecer cidades, etc., o conteúdo.

Em segundo lugar, a filosofia contém os mais altos pensamentos racionais sobre os objetos essenciais, contém o universal e o verdadeiro dos mesmos; é de grande importância familiarizar-se com este conteúdo e acolher na própria cabeça tais pensamentos. O comportamento tristonho, simplesmente formal, a perene busca e vagabundagem sem conteúdo, o argumentar ou especular assistemático, tem como consequência a vacuidade de conteúdo, o vazio dos pensamentos nas cabeças, pois nada podem. A doutrina do direito, a moral, a religião são um âmbito de importante conteúdo; igualmente a Lógica é uma ciência cheia de conteúdo. A Lógica objetiva (Kant: transcendental) compreende os pensamentos fundamentais do ser, essência, força, substância, causa, etc.; a outra inclui os conceitos, juízos, silogismos, etc., determinações fundamentais igualmente importantes; – a psicologia engloba o sentimento, a intuição, etc.; – a enciclopédia filosófica, por fim, compreende em geral todo o âmbito. As ciências wolffianas, Lógica, Ontologia, Cosmologia, etc., Direito Natural, Moral, etc., estão mais ou menos desvanecidas; mas nem por isso a filosofia deixa de ser um complexo sistemático de ciências ricas de conteúdo. – Além disso, o conhecimento do absolutamente absoluto (de facto, aquelas ciências devem chegar a conhecer o seu conteúdo particular também na sua verdade, isto é, na sua absolutidade) só é possível mediante o conhecimento da totalidade nos seus graus de um sistema; e aquelas ciências constituem os seus graus. O pudor em face de um sistema exige uma estátua do Deus que não devia ter figura alguma. O filosofar assistemático é um pensar fortuito, fragmentário, e a consequência é justamente a alma formal para o verdadeiro conteúdo.

Em terceiro lugar, o procedimento no conhecimento de uma filosofia rica de conteúdo não é nenhum outro a não ser a aprendizagem. A filosofia deve ensinar-se e aprender-se, como qualquer outra ciência. O prurido infeliz de educar a pensar por si e para a produção autônoma pôs esta verdade na sombra – como se, ao aprender o que é substância, causa ou seja o que for, eu não pensasse por mim mesmo, como se eu não produzisse por mim mesmo estas determinações no meu pensar, mas as mesmas lhe fossem arrojadas como pedras – como se, além disso, quando examino a sua verdade, as provas das suas relações sintéticas, ou a sua transição dialética, eu mesmo não fizesse tal exame, não me convencesse a mim mesmo de tais verdades – como se, ao familiarizar-me com o teorema de Pitágoras e a sua demonstração, eu mesmo não conhecesse este teorema e não demonstrasse a sua verdade. Por muito que o estudo filosófico seja em si e para si um fazer por si mesmo, é igualmente uma aprendizagem – a aprendizagem de uma ciência já existente, formada. Esta é um património de conteúdo adquirido, composto, elaborado; este bem hereditário deve ser adquirido pelo indivíduo, isto é, ser aprendido. O docente está na sua posse; reside primeiro no seu pensamento, e só ulteriormente no pensamento dos alunos. As ciências filosóficas contêm os verdadeiros pensamentos universais dos seus objetos; são o produto resultante do trabalho do gênio pensante de todas as épocas; tais pensamentos verdadeiros ultrapassam o que um jovem não formado produz com o seu pensar, na mesma medida em que aquele acervo de trabalho genial excede o esforço de semelhante jovem. A representação originária, peculiar, da juventude sobre os objetos essenciais é, em parte, inteiramente pobre e vazia, em parte, porém, na sua infinitamente maior parte, é opinião, ilusão, imperfeição, incerteza, indeterminação. Graças à aprendizagem, para o lugar dessas ilusões vem a verdade. Uma vez cheia a cabeça de pensamentos, terá então também a possibilidade de ela própria fazer avançar a ciência e de lhe conquistar uma verdadeira originalidade; mas nada disto se deve fazer nos Institutos Públicos de instrução, sobretudo nos Ginásios; há que orientar o estudo filosófico essencialmente para este ponto de vista a fim de assim algo se aprender, a ignorância se afugentar, a cabeça vazia se encher de pensamentos e conteúdo e se expulsar a peculiaridade natural do pensar, isto é, a contingência, o arbítrio e a particularidade da opinião.

 

B.

O conteúdo filosófico tem, no seu método e na sua alma, três formas: 1. É abstrato, 2. Dialético, 3. Especulativo. É abstrato, porquanto existe em geral no elemento do pensar; mas de um modo simplesmente abstrato, em contraposição com o dialético e o especulativo, ele é o chamado elemento intelectivo, que fixa e chega a conhecer as determinações nas suas rígidas diferenças. O dialético é o movimento e a confusão das determinidades rígidas – a razão negativa. O especulativo é o positivamente racional, o primeira e genuinamente filosófico.

No tocante ao ensino da filosofia nos Ginásios, o essencial é, em primeiro lugar e acima de tudo, a forma abstrata. A juventude deve, antes de mais, esquecer o ver e o ouvir, deve subtrair-se à representação concreta, retirar-se para a íntima noite da alma, deve aprender a ver neste plano, a estabelecer e a distinguir determinações.

Além disso, aprende-se a pensar abstratamente mediante o pensar abstrato. Pode, pois, desejar-se começar ou pelo sensível, pelo concreto, extrair e elevar este ao abstrato por meio da análise, tomando assim – como parece – a via natural, como também se sobe do mais fácil para o mais difícil; ou então pode igualmente começar-se pelo abstrato, tomar o mesmo em si e para si, ensiná-lo e torná-lo compreensível. Em primeiro lugar, no tocante aos dois caminhos, o primeiro é certamente mais natural, mas por isso mesmo é o caminho não científico. Embora seja mais natural que um disco de rotundidade aproximada se arredonde a pouco e pouco a partir do tronco de uma árvore, por meio do desbaste de pedaços desiguais e salientes, o geómetra, porém, não procede assim, mas traça igualmente com o compasso ou com a mão livre um círculo abstrato e exato. É conforme à coisa, porque o puro, o mais alto, o verdadeiro é natura prius [anterior por natureza], que por ele também se comece na ciência; esta é, com efeito, o inverso da representação simplesmente natural, isto é, não espiritual; aquele é verdadeiramente o primeiro, e a ciência deve agir segundo a verdade efetiva. – Em segundo lugar, é um erro completo ter por mais fácil o caminho natural, que começa pelo sensível, pelo concreto e avança para o pensamento. É, pelo contrário, o mais difícil – do mesmo modo que é mais fácil pronunciar e ler os elementos da linguagem, as letras singulares, do que as palavras inteiras. – Por ser o mais simples, o abstrato é mais fácil de compreender. A realidade sensível concreta deve, sem mais, remover-se; é escusado assumi-la de antemão, pois é preciso deixá-la novamente de lado e age apenas como fonte de distração. O abstrato, como tal, é bastante compreensível, porquanto é necessário; o entendimento correto deve, além disso, entrar primeiramente através da filosofia. Deve fazer-se de modo que os pensamentos do universo se recebam na cabeça; mas os pensamentos são em geral o abstrato. O raciocínio formal e privado de conteúdo é decerto também bastante abstrato. Mas pressupõe-se que se tem o conteúdo, e o conteúdo correto; o formalismo vazio, a abstração sem conteúdo, porém, ainda que fosse mesmo acerca do absoluto, é removido da melhor maneira pelo que precede, a saber, pela exposição de um conteúdo determinado.

Se apenas se aderir à forma abstrata do conteúdo filosófico, tem-se uma (chamada) filosofia intelectualista; e enquanto no ginásio se lida com a Introdução e a Matéria, aquele conteúdo inteligível, aquela massa sistemática de conceitos abstratos privados de conteúdo, é imediatamente o filosófico enquanto matéria, e é introdução, porque a matéria é em geral o primeiro para um pensar efetivo, fenomênico. Por conseguinte, este primeiro grau deve, aparentemente, ser o prevalecente na esfera ginasial.

O segundo grau da forma é o dialético. Este é, em parte, mais difícil do que o abstrato, em parte o menos interessante para a juventude, ávida de concreção e de realização. As antinomias kantianas são prescritas no Regulamento em relação à Cosmologia; encerram em si um profundo fundamento sobre o que de antinómico há na razão, mas semelhante fundamento reside demasiado oculto e, por assim dizer, privado de pensamento e demasiado pouco conhecido na sua verdade; por outro lado, elas são efetivamente um dialético demasiado mau – nada mais do que antíteses contorcidas: na minha Lógica, como creio, elucidei-as com mérito. Infinitamente melhor é a dialética dos antigos Eleatas e os exemplos que dela se nos conservaram. – Visto que, em rigor, num todo sistemático cada novo conceito surge por meio da dialética do precedente, então o docente, que conhece a natureza do filosófico, tem a liberdade de fazer em toda a parte a pesquisa da dialética, tantas vezes quantas puder e, onde ela não depara com entrada alguma, de passar sem ela para o conceito mais próximo.

O terceiro é o elemento propriamente especulativo, isto é, o conhecimento do oposto na sua unidade – ou, mais exatamente, que os opostos são, na sua verdade, um. Este especulativo é, antes de mais, o genuinamente filosófico. É naturalmente o mais difícil; é a verdade, existe numa dupla forma: 1. numa forma mais comum, mais próxima da representação, da imaginação, também do coração, por exemplo, quando se fala da universal vida da natureza, que se move a si mesma e se configura em infinitas formas – panteísmo e coisas semelhantes – quando se fala do eterno amor de Deus, que é Criador para amar, para se contemplar a Si mesmo no Seu Eterno Filho e, em seguida, num filho dado na temporalidade, no mundo, etc. O direito, a autoconsciência, o prático em geral contém já em si e para si os princípios ou inícios disso, e do espiritual também em rigor se não pode dizer uma palavra a não ser especulativa, pois ele é a unidade consigo no ser-outro; de outro modo, ainda que se utilizem as palavras alma, espírito, Deus, unicamente se fala de pedras e carvões. – Ao falar-se do espiritual só abstratamente ou de um modo intelectual, o conteúdo pode, no entanto, ser especulativo – tal como o conteúdo da religião perfeita é altamente especulativo. Mas a lição, se for entusiástica ou, se não o é, e for por assim dizer narrativa, coloca o objeto apenas perante a representação, e não frente ao conceito.

O concebido, e isto significa o especulativo que promana da dialética, é unicamente o filosófico na forma do conceito. Isto só com parcimónia se pode propor na lição ginasial; em geral só por poucos é apreendido e, em parte, também não se pode saber bem se ele é apreendido. – Aprender a pensar especulativamente – o que é prescrito no Regulamento como a determinação fundamental do ensino propedêutico filosófico – deve, pois, considerar-se como a meta necessária; a preparação para tal é o pensar abstrato e, portanto, o dialético, ademais, a aquisição de representações de conteúdo especulativo. Visto que o ensino ginasial é essencialmente propedêutico, poderá consistir sobretudo em procurar obter estas vertentes do filosofar.

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